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quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

A mimese e a ideologia da arte em Platão e Aristóteles

A mimese e a ideologia da arte em Platão e Aristóteles


Por Carlos Gildemar Pontes


Não é de agora que a arte tem sido agregada a esquemas ideológicos. Em sistemas políticos decorrentes de golpes ou revoluções, o valor da arte é associado à ideologia pelo poder dominante. Tudo que contrariar este valor agregado é colocado no campo da subversão, o que torna tal atitude um despropósito, pois referenda o conceito intrínseco da arte, o de subverter e revolucionar.

As considerações sobre a arte literária e sua relação com a sociedade existem, em si, desde o nascimento das primeiras formas literárias, o poema ou a narrativa orais, que inauguraram a cultura artístico-verbal dos homens através de uma representação. Isso começou a ser sistematizado desde a Antiguidade clássica, quando se tentou definir os gêneros literários.

Esta representação foi, ao longo dos tempos, incorporando uma série de relações discursivas, fruto do acúmulo das obras manifestadas através dos diversos tipos de arte e das suas linguagens. A arte, como uma forma de comunicação sensível entre o artista e a sociedade, traz na sua linguagem um entremeado de idéias que dialogam no tempo e no espaço de uma ou de várias culturas. No caso da literatura brasileira, veremos momentos díspares em relação a um conceito de mimese. Ora tendemos para a dupla cópia: imitamos uma fôrma literária estrangeira ou tentamos criar a nossa própria fôrma.

A literatura, em seu processo de elaboração, possibilita o diálogo de um texto com outros textos e com as outras formas artísticas, pelo tempo e espaço indefinidos. A relação entre a literatura e os outros elementos da cultura, segundo M. Bakhtin[1][i], associa o fazer artístico ao ideológico. A noção de mimese no caso está dissociada da representação da realidade. O que importa para o pensador russo são as relações dialógico-discursivas que estabelecem as formas artísticas.

Desde Aristófanes, em As rãs, já estava esboçado um princípio norteador da existência da literatura enquanto fenômeno social. No livro III, e posteriormente no livro X, d’A República[1][ii], Platão divide os gêneros literários em três: épico, lírico e dramático e considera a idéia como a verdadeira realidade; o objeto será uma mera imitação da realidade, portanto, quem copia um objeto estará imitando uma imitação. Quando tratava da imitação na arte, Platão referia-se de forma restritiva aos poetas.

O autor de tragédias, se é um imitador, estará por natureza afastado três graus do rei e da verdade, assim como todos os outros imitadores.[...] Sendo assim, a imitação está longe da verdade e, se modela todos os objetos, é porque respeita apenas a uma pequena parte de cada um, a qual, por seu lado não passa de uma sombra .(p.324-325)

No livro III, Platão faz restrições à obra de Homero, precisamente aos aspectos relativos ao que chama de “encanto poético”. Para o filósofo, o “encanto poético” prejudicaria a formação de crianças e homens, pois as palavras que produzem tal efeito resultariam em uma certa deformação no caráter dos homens. Por isso, Platão, pela voz de Sócrates, afirma:

pediremos licença a Homero e aos demais poetas para que não se ofendam se as eliminarmos. Não que a maioria não as considere poéticas e suaves, porém, quanto mais poéticas, menos devem chegar aos ouvidos de crianças e de homens que devem ser livres e recear a escravidão bem mais que a morte. (p.76)

Não aceitava Platão que a natureza da criação literária consistisse exatamente na imitação não só de uma obra/objeto, mas também de uma idéia/realidade. Para o filósofo, o bom poeta não seria aquele capaz de dominar o assunto do qual fala sem conhecê-lo profundamente. Se falasse sobre a guerra, deveria ser conhecedor igualmente a um general; se sobre a cadeira ou o sapato, deveria ser do mesmo modo marceneiro ou sapateiro.
Apesar da atitude de censura ao poeta, o discurso platônico será retomado por outros não tão ilustres quanto Platão, mas lamentavelmente limitados a algum tipo de censura.
De outra forma pensou Aristóteles. Neste, e na sua Poética, a Poesia (Literatura) ganha status de Arte superior à própria História.

Por isso, a Poesia encerra mais filosofia e elevação do que a História; aquela enuncia verdades gerais; esta relata fatos particulares. Enunciar verdades gerais é dizer que espécie de coisas um indivíduo de natureza tal vem a dizer ou fazer verossímil ou necessariamente; a isso visa a Poesia, ainda quando nomeia personagens. Relatar fatos particulares é contar o que Alcebíades (fulano) fez ou fizeram a ele.[1][iii]

Sua abordagem, portanto, passa do plano idealista para o plano ontológico. Enunciação aparece, aqui, como dizer ou fazer verossímil. A poesia comporta um discurso que é necessário à sua existência.

Segundo Bosi,

Com Aristóteles instaura-se um modo técnico de conceber o texto de poesia: como se este fosse trabalhado, desde dentro, por um projeto que visasse a produzir determinados efeitos (o épico, o trágico, o cômico...) mediante o uso de determinados meios: a flauta ou a cítara; o pé jâmbico ou o pé trocaico; a unidade de tempo, a unidade de ação. (...) Se há meios, instrumentos, recursos, procedimentos da linguagem artística, então é possível dizer, ainda, que a posteriori, em tempo de análise, que a composição e a elocução do poema obedeceram a regras. Há um saber que se pode classificar e transmitir, um saber que pode virar norma: a Retórica.[1][iv] 

 

Vê-se que Aristóteles compreendia as relações dos elementos intrínsecos da poesia e o efeito que produziriam em nós. Considerava a obra de arte como mimesis e, como tal, a separava conforme o imitado, o meio de imitação e a maneira pela qual essa imitação se efetuava. A poesia, por tratar de uma verdade geral e operante, pode, através do poeta, escolher este ou aquele incidente para alcançar uma realidade mais profunda que aquela expressa na realidade comum.

O poema se forma, em Aristóteles, como uma imitação verbal de atos, fábulas e caracteres, no que esses objetos têm de possível. E o que funda, em última instância as formas e os limites desse possível? O conhecimento, que o poeta detém da comunidade de valores e afetos que o liga ao seu público.[1][v]

Se para Aristóteles os elementos constituintes distintos em todo discurso são: aquele que fala, o assunto de que se fala, aquele a quem se fala; analogicamente, o texto, o escritor e o público constituem realidades indissociáveis no processo de criação literária. Para nós, é bastante significativa esta reflexão inicial, dialogada com Bosi, das vozes de Platão e Aristóteles sobre literatura. Seguí-los e compará-los através de suas obras e de seus descendentes teóricos é estabelecer a relação dialógica necessária para a compreensão e para a análise dos textos.









1. Mikhail Bakhtin elaborou uma teoria literária baseada nas relações entre literatura e cultura a partir da noção de dialogismo, polifonia e plurilingüismo. Ver, dentre outras obras do teórico russo que tratam do assunto, Questões de literatura e de estética: a teoria do romance. 2ª ed. Trad. Aurora Fornoni Bernardini e outros. São Paulo: UNESP/HUCITEC, 1990.

2. PLATÃO. A República. Trad. Enrico Corvisieri. São Paulo: Nova Cultural, 1997.

3. ARISTÓTELES et al. A poética clássica. Introdução Roberto de Oliveira Brandão. Trad. Jaime Bruna. 3ª ed. São Paulo: Cultrix, 1988, p. 28.

4. Alfredo Bosi, In: BRANDÃO, Roberto de Oliveira. A tradição sempre nova. São Paulo: Ática, 1976, p.12.

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Não sei o que aconteceu